domingo, 5 de maio de 2024

Pequena Crônica do Sonho

 


Pequena Crônica do Sonho

 

O Primeiro Deus, a Primeira Deusa… Dia e Noite; 

A noite, residência das memórias que se tornam como Sonhos, fragmentos oníricos, mas do que simples registros factíveis. Tudo é Sonho.

Lembro - lembranças, de muitas, fragmentadas - lembro de um velho dia de Verão ou Primavera, sol, céu azul, ar fresco, de ter 9 ou 10 anos, levado em um dos tantos passeios com minha avó, acompanhando-a em suas visitas a conhecidos; gente que para mim nunca tive muito contato ou sequer conhecimento, lembro de ser levado a algum bairro da Baixada Fluminense, Duque de Caxias, Estado do Rio de Janeiro, anos 80; quem conhece sabe como é, muitas localidades com suas ruas de terra, matagais, terrenos baldios, aquele ar de antigo ou como se critica por aí, “atrasado”; lembro da casa, um quintal grande, com árvores, casinha simples de uma senhora, como minha avó… lembranças como sonho, sonhos como lembrança.

Lembro daquele dia, no quintal, enquanto minha avó conversava com sua comadre, eu brincava com outros garotos, que deviam ser parentes ou netos, não sei, daquela senhora… brincávamos entre as árvores arrancando os frutos de um cafezal e tacando uns nos outros, fora isso catávamos jabuticabas de outra e comíamos. Foi neste dia que conheci o Filho de Belphegor.

Ele era estranho, mais velho que nós, comparando com o entendimento de hoje, devia ter uns 18 ou 19 anos talvez, ou quem sabe era mais novo que isso, mas para nós, um bando de moleques de no máximo 10 anos de idade ele parecia velho; além disso era magricela, estranho, estranhamente magro, algo em seu corpo que parecia não se encaixar, era assim que eu o percebia, em seu corpo tinha algo que o deixava assim… como dizer, tosco, ou, torto… ele parecia torto - magro, alto e torto, meio desengonçado, branco, cabelos pretos e curtos, olhar que ao mesmo tempo dava uma sensação de vazio e estar vendo coisas além - o Filho de Belphegor transparecia algo de malévolo ou estranho demais… ficávamos longe dele, as vezes ele se dirigia a nós para dizer algo… mas não lembro sobre o quê dizia; ele parecia uma mistura de Wilbur Whateley de O Horror de Dunwich, conto de H. P. Lovecraft com um simples cara de um país tropical de Terceiro Mundo vestido apenas uma bermuda e pés descalços mostrando todo seu corpo magricela para todos.

O Filho de Belphegor ficava ali no quintal fazendo coisas que não sabíamos o que era, “coisa de adulto”, seria, era assim que a molecada brincando nas árvores poderia pensar. Ainda me lembro de almoçar junto daquela senhora e minha avó, comida simples, arroz, feijão e ovo frito, lembro da sala, pequena, uma mesinha de madeira encostada na janela, aquelas janelas antigas de madeira que se abriam em duas partes e se podia ver tudo lá fora… tenho uma estranha memória de uma cena tão estranha quanto, o Filho de Belphegor também estava comendo a mesma coisa que eu, mas estava almoçando lá fora no quintal… a tal senhora não permitia que ele entrasse na casa? Nunca soube; daí um dos gatinhos, sim, havia filhotes de gatos pela casa, aquela senhora devia gostar de gatos, um do filhotes maiores pulou nas costas do Estranho e o arranhou um pouco ao que pareceu e no mesmo momento aquele esquisito vomitou ou deu ânsias de vômito… uma cena meio tosca pela minha memória, a velha senhora falou algo como se fosse uma explicação porque aquilo estava acontecendo mas não lembro o que ela falou, será que o Filho de Belphegor era alérgico a gatos ou tinha nojo de gatos a ponto de vomitar só pelo contato com um deles? Na minha vaga lembrança fragmentada acho que a senhora tinha dito algo parecido… ele era estranho! Era assim que me lembro daquele dia, uma tarde fresca ensolarada de uma Primavera ou Verão no meio de um quintal cheio de árvores e o Filho de Belphegor ali, esquisito, meio torto, com olhos vazios que viam além, fazendo alguma coisa que nunca soube o que seria… ele era neto ou parente da velha senhora dona daquela casa ou de outra pessoa? Não sei… quem era aquela pessoa esquisita? 

O Filho de Belphegor seria um dos muitos fragmentos de minhas lembranças, tantos passeios a lugares e visitas a pessoas que nem tinha noção de quem eram ou que ligação, mesmo que longínqua teriam com minha família, sempre acompanhando minha avó em suas andanças a casas de conhecidos. O Filho de Belphegor era um Ponto de interligação de lembranças que hoje são como partes de Sonho e tinha a função de ser uma ponte para outras memórias de estranheza em minha mente, ele era o Porteiro para uma sucessão de lembranças oníricas semelhantes… tudo virou Sonho -  eu tenho muitas… o Filho de Belphegor é um Símbolo de todo este conjunto de objetos estranhos de minha memória, objetos como caixinhas de música antigas acompanhando bibelôs diversos cobrindo uma penteadeira de madeira imitando madrepérola, talvez… aquela estranha pessoa visse com seus olhos vazios o devir de muitas vidas e quem sabe a minha, olhos como um móvel antigo loteado de bijuterias ou talvez seus olhos fossem como as velhas bacias de alumínio com água onde as velhas podiam ver coisas e segredos… como minha avó fazia… talvez o Filho de Belphegor visse a cena do grito misterioso de uma mulher que ouvimos ao chegar na nova casa em Vigário Geral ao terminar uma pequena oração colada na porta de entrada… memórias - Sonho - tantas coisas dentro de um velho baú de madeira escura empoeirado, lembranças, sensações, sentimentos - o coqueiro ladeado de roseiras na frente da casa e a velha e opulente mangueira nos fundos, no terreno baldio onde brinquei tantas vezes, aventuras imaginadas, coisas achadas, contas de miçangas diversas como tesouro achado… pedaços de Santos católicos, cristais de quartzo rosa inteiros, a linda e assustadora grande aranha negra e vermelha na velha árvore… muitas coisas achei ali - achei e vi - a sombra negra com olhos vermelhos voadora como um gigantesco morcego… a coisa enorme e cheia de luzes no céu noturno acima de minha cabeça em minha infância mais distante, balão ou outra coisa… tudo estava ali… tudo memória…Sonho - tudo agora é Sonho… tudo pelos estranhos olhos do Filho de Belphegor.

 

 

 

 

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